Elixir

Se
Olho pro lado e não te encontro
E não escuto tua voz, tampouco
Talvez esteja mesmo um tanto louco
Porque ainda sinto teu perfume aqui.
Se
Já não me lembro o dia em que te vi
Nem de tudo aquilo que disseste
Talvez eu seja mesmo um cafajeste
E não mereça estar do teu lado.
Se
Eu não enxergo o que fiz de errado
E não compreendo a tua atitude
Talvez eu seja mesmo muito rude
E estás bem certa quando dás de ombros.
Se
Sobrevivi em meio a esses escombros
E te desejo mais que à própria vida
Talvez tu sejas mesmo a mais querida
Que poderia pra mim existir.
Se
Teus beijos doces foram um elixir
Do mais perfeito e sábio alquimista
Talvez na vida eu jamais desista
De te amar e de te ter me amando.
Se
Cheguei aqui porque segui errando
Daqui não passo se não te levar
Talvez eu deva mesmo te esperar

E é só isso que eu tenho feito.

Poema no Mar

Larguei um poema no mar
Em uma garrafa de rum
Se um dia ele te encontrar
Tomara não seja apenas mais um
Tomara tenha a sorte
Que não teve nenhum
De tocar a tua alma
De fazer suar a palma
Da tua mão
De ousar mudar o ritmo
Das batidas
Tão contidas
Do teu coração.
Eu queria tanto
Estar aí contigo
Eu queria mesmo
Ser o teu melhor amigo
Ser de novo teu amante
E não ser o almirante
Sem esquadra
E não ser o comandante
De um barco naufragado
E não ser o habitante
De uma ilha tão distante
A viver apaixonado…
Larguei um poema no mar
Escrito com tinta vermelha
Se um dia ele te encontrar
Que nos sirva de centelha
Que acenda no teu peito
Que acenda do teu jeito
A paixão que existe no meu.
Larguei o poema no mar,
Pedi ajuda a Netuno
E no momento oportuno
Ele vai te entregar.
Após noite mal dormida
Tu estarás distraída
E ao olhar o mar de Angra
Vais se lembrar que ainda sangra
Meu coração, com saudade.
E vais ver, então, uma garrafa,
Presa, talvez, na tarrafa
De algum pescador.
Dentro estará um poema
E, com certeza, o amor.

Eu juro

Pelo homem que deu por cachaça
O dinheiro que compra seu pão.
Pelo outro que deu, por desgraça,
O que tinha em seu coração.

Pela santa que chora em vermelho
Pelo velho que jaz no caixão
Pelo estranho que eu miro no espelho
Pela moça que inspira a canção
Pelo moço que canta o fado
Pelo artista que pinta com o pé
Pela virgem que cheira a pecado
Pelo ateu que vive da fé
Pelo surdo que toca piano
Pelo cego sem medo do escuro
Pelo tolo e seu tolo engano
Pelo homem que reza no muro
Pelo réu que jura inocência
Pelo cão que lambe seu dono
Pelo escravo que pede clemência
Pelo anjo que vela o teu sono
Pelo soldado sem dia seguinte
Pelo rosto que está no jornal
Pelo sem-teto e sem requinte
Pelo mendigo do sinal
Pelo palhaço que chora
Pela estudante que ama
Pela amante que implora
Pela velha que reclama
Pelo velho que não escuta
Pelo ambulante que berra
Pelo menino que luta
Pela gente que erra
Pela mãe que espera seu filho
Pelo pai que rouba por fome
Pelo insano que deita no trilho
Pela puta que tinha o teu nome

Pelo amigo que abraça
O amigo em pranto
Pelo Pai, pelo Filho
Pelo Espírito Santo

Pelo amor da minha vida
Que ainda vou conhecer

Eu juro e, de novo, eu juro
Que agora eu vou te esquecer.

Como?

Ah! Se eu ousasse dizer…
Se eu conseguisse expressar…
Talvez tentando escrever…
Ou, quem sabe, cantar…

Mas a coragem escasseia
A timidez me domina
O meu medo me cerceia
Me prende e desanima

Como saberás, então?
Se o sentimento não digo
Me terás como um irmão
Apenas um bom amigo…

E o que sinto é em vão
Pois a ti eu não declamo
Ao segurar tua mão
Não te digo que te amo…

Soneto do Ex-poeta

Já faz quase uma hora
Que eu só consigo rimar
Amor que se foi embora
Com amor que não quer voltar

A dor que dói no meu peito
Dói também no meu caderno
Não acho um verso perfeito
Nem tenho um amor eterno.

Perdi o dom da escrita
Que era o meu ganha-pão
Perdi a moça bonita

Perdi com ela a paixão
E a esperança infinita
Que enchiam o meu coração.

Carolina

Carolina,
Doce amiga,
Mais que amiga,
Mais que doce.
Se fosse,
Carolina, uma flor,
Seria um amor-perfeito
Que eu usaria no peito,
No terno,
Pra mostrar o amor eterno,
De amigo,
Que eu trago sempre comigo,
Para dar pra Carolina
Do colo que me acolhe,
Me nina.
Menina,
Do abraço
Que me aquece,
Da palavra que me ensina.
Minha fortaleza,
De rara beleza,
Sorriso que me acalma
E alma
Cristalina.

Esse foi de presente pra minha grande amiga Carolina Senna.

Ana

Ana.
Goiana.
Se diz mundana
Se faz profana
Com nome de santa.
Dança a Taranta
E entra em transe.
Profundo.
E ganha o mundo.

Ana.
Veneziana.
Impaciente.
Indecente.
Coxas expostas
E as costas.
Ana.
Balzaquiana.
Adolescente.
Envolvente.
Entre a doçura de Cecília
E o erotismo de Miller.

Ana.
Capricorniana.

Para Ana, que pediu poema. E jamais vi.

O que dar de presente

O que dar de presente
Pra uma mulher diferente –
Que é gêmea da primavera?

Eu não sei o que ela espera
Mas tenho pouco pra dar…

Alguns mal traçados versos
Ou uns sonetos dispersos
Que se recusam a rimar…

Não tenho eu competência
Para fazer reverência
Com minhas toscas palavras
Pra uma mulher tão bonita
Que traz um brilho no olhar
E um sorriso nos lábios
Que fazem a gente sonhar.

Ela traz todas as cores
E o perfume das flores
De uma nova estação.

Ela desperta amores
E acaba com as dores
Do meu pobre coração.

O que que eu dou de presente
Pra essa mulher diferente
Que é irmã da primavera?

É bem melhor nem tentar
Pra não deixar descontente
Pois se ela for exigente,
Não tenho nada pra dar.

Presente de aniversário, pra minha amiga Vanessa Buchheim