Eu quero você de todos os jeitos
Com todas as suas manias
E defeitos
Com todos aqueles seus pretextos pretéritos
Mais que imperfeitos
Que fazem tanta falta
Num dia como hoje
Em que o maior de todos meus desejos
É caprichar na retórica
Pra te pedir dois beijos
Um pra agora
E outro pra levar
Porque daqui a meia hora
Eu sei que vou sentir saudade
Eu sei que vou sentir vontade
De novo de você
E vou te querer
Com todos os seus vícios
E artifícios
Com todos os seus medos
E segredos
Com todos os seus risos
E improvisos
Com toda a sua imensa
Toda a sua intensa
Vontade de viver
Eu quero hoje, amanhã e sempre
Eu quero você
Categoria: Mas Larga Essa Mala no Chão!
Esfinge
Eu devia ter desconfiado
Desses olhos de leão
Que escondem o coração
De pedra
De uma esfinge
Que finge
Nem me notar. Não me querer.
Eu que tentei decifrar
Desde o segundo segundo em que a vi
Mesmo quando o que eu mais queria
Era ser devorado.
Era ter transformado
Esse meu amor quase platônico
Em um romance faraônico
De final feliz
(Juro que eu quis)
Mas tudo o que resta do sonho
É o deserto
De escassas lágrimas pelo amor que não deu certo
De remotas esperanças de tê-la de novo por perto
Pra descobrir, pra conquistar
Mais do que a aparência, muito mais, a sua essência
O seu lindo coração
Protegido, escondido
Pelos olhos de leão.
Sandália
Quando passar por aqui qualquer dia
Deixa pra mim lá na portaria
Um envelope com a minha alegria
Que você levou por engano
Quando, enganada, saiu
Quando se foi apressada e aflita
Deixando pra trás preciosos pertences:
Meu coração e a sandália de dedo
Enchendo a sala de dor e de medo
De um nunca mais
Quando passar por aqui qualquer dia
Em vez de deixar o envelope com o Zé
Sobe, quem sabe eu te faço um café
Daqueles que a gente tomava à tardinha
Enquanto falava das nossas vidas
Que eram tão próximas
Tão pouco sofridas
Tão lindas de viver
Quando passar por aqui qualquer dia
Esquece que um dia saiu apressada
Lembra que aqui ainda é teu lugar
Fecha os olhos e sonha de novo
Deixa a sandália voltar pro seu pé
Acende uma vela e toma um café
Abre o envelope e põe a alegria
De volta no lugar
Olha Pra Mim
Olha pra mim mais uma vez
Que eu esqueci de perguntar
A tua música favorita
O teu número da sorte
Em que deus cê acredita
E esqueci de te falar
Que você tá tão bonita
Que tenho medo da morte
E que a vida é esquisita
Se você não está.
Fica só mais um instante
Que eu esqueci de perguntar
Se essa lágrima que escorre
Foi casual, um mero cisco
Ou se corremos o risco
De ser de dor
É de doer. É de matar
Essa saudade que inda vou sentir
Essa tristeza que inda vou chorar
Essa verdade que eu vou dizer
Olha pra mim pra não esquecer
Que eu te amo e vou sempre amar.
Tagliatelle
Alma quebrada. Que brada
Com o coração sombrio. Sem brio.
Sem amor, sem ódio. Só nada.
Quieto, tolo, fraco. E frio.
Coração sem cor. Sem ação.
Coração carente.
Que chora.
Coração doente
Que piora.
Coração demente
Se apavora.
Coração dormente
Ignora
As súplicas da alma
Que implora
Por inesgotável calma
Nessa hora!
E que o coração desista de desistir
Que o coração insista na insistência
Porque se a alma gêmea demora a vir
Quem pode ir buscá-la é a paciência.
Mas o coração vazio, vadio
Vagueia vagaroso. Acuado.
Desconfiado, arredio.
Seco, oco, roto. Derrotado.
Bate por bater. Dentro do peito.
Sem ritmo, sem força. Tão triste.
E num instante ímpar, imperfeito
Abandona a alma. E desiste.
Não!
Não é possível
Que tenha sido tudo em vão
O que li nos teus olhos
Não foi mera ilusão
À toa não foi, à toa não foi
À toa não
Só conheci amor quando peguei a tua mão
À toa não
Eu não posso entender
E nem quero querer
Que você suma e tudo se resuma
Em versos perversos,
Ditos malditos e
Pesados pesadelos
Que eram sonhos
E jamais serão
Tratos abstratos
Que se vão.
Não foi em vão. Não foi em vão.
À toa não.
Não!
Tão Difícil
Vai ser difícil…
Viver sem teu bom-dia
Vai ser difícil…
Ou talvez seja impossível
Sorrir sem teu sorriso
Respirar sem teu perfume
Imaginar sem tua inspiração
Vai ser difícil
Outro rosto no porta-retrato
Outros olhos pra me dar coragem
Outra boca pra fazer silêncio
(Vai ser difícil…)
Chegar em Ipanema
Escrever mais um poema
Falar de cinema com alguém
Vai ser difícil ficar sem…
Vai ser difícil ficar bem…
Tão difícil…
Vai ser tão difícil…
Tão difícil…
Achar graça em Agosto
E beber sozinho
Essa bebida sem gosto
Que já foi… o nosso vinho…
Vai ser difícil…
Janela
Ah! Eu preciso abrir a janela
Eu preciso ver o sol
Eu quero acabar com essa profana agonia
De todo santo dia
Desde o dia em que você foi embora
Desde aquela hora,
Eu me calei
Todo esse tempo
Mudando e mudo
Em todo esse tempo eu só escuto
Caetano
Calado, como um velho sábio monge
Tibetano
Vendo a minha desbotada eloqüência
Deixar nascer uma bem-vinda paciência
Vendo o meu orgulho imenso
Queimar como um incenso
Que impregnou o ar com um perfume de baunilha
E nostalgia,
Poderosa amônia,
A despertar minha indiscreta insônia
Que, ontem à noite, sem eu perguntar, me disse
Que é vazia e inútil
Minha metamorfose,
Se o amor foge
Pra longe,
Pra onde
Você não vê.
Por isso hoje eu abro a janela,
Fujo desse estéril castigo
Que, errado, julguei ser o meu abrigo
E para cada um que passa eu digo
Como se fosse o meu melhor amigo
Que eu amo você,
Que agora eu já entendi
E eu te quero aqui.
Saudade
Saudade não é saudável…
Tão ingrata emoção
É doença incurável
É a solidez da solidão
Saudade, insano vazio
Que preenche o coração
Saudade é um dia frio
Bem no meio do verão
Saudade é forma de dor
Que dói no peito que espera
Saudade é jardim sem flor
Mesmo em plena primavera
Saudade é falta de sorte
Saudade é prima da morte
Saudade derruba o forte
Saudade… Maldade…
Saudade é medo. É trauma
De viver longe de ti,
Saudade é minha alma
Quando não estás aqui.
180898
Momento solene
Quando te vi
Amor perene
Nasceu ali?
Uma hora antes
Ou séculos depois
Finalmente instantes
De só nós dois…
Chegaste,
Sorriste,
Ficaste.
Aprendemos,
Sofremos.
Vivemos.
